Da noite de Jerusalém à chuva do Mar Morto

Ontem à noite recordei-me do filme “Este País não é para velhos” quando saí à noite em Jerusalém.

Desde o início desta viagem que me tenho resguardado bastante de saídas nocturnas, isto para não falar em abstinência total. Eu sei que é um crime, mas a doença não me tem permitido. Mas ontem era de facto a únca oportunidade que tinha em visitar o Muro das Lamentações. Foi a minha quarta visita! E depois de jantar, acompanhado por dois amigos, um deles de há 38 anos (!), lá apanhámos um taxi que nos deixou na “Porta do Lixo”, e daí até ao Kotel são 2 minutos. A noite esta gelada. É que Jerusalém situa-se quase a 700 metros acima do nível do mar e aqui isto significa frio, muito frio! Para ajudarà festa, começou a chover!

Seja como for, lá estava eu diante do Muro, a tremer, e centenas e centenas de judeus ortodoxos a rezar numa sinfonia o mais desafinada possível. Olhava para os lados e via aquelas vestes negras, ares intimidadores e pensava para comigo “e esta a minha gente?”. E cada vez que havia um pequeno espaço no muro e me preparava para avançar, lá vinha outro casaco preto, de longos caracois no lugar das patilhas, roubar o espaço que era meu. Lá ia esperando e hesitando, enquanto me sentia um “estrangeiro”. Depois abri os olhos, olhei bem à volta, contemplei a diversidade que faz a beleza do judaismo, que nos faz todos iguais, o kosher e o não-kosher, o ortodoxo e aquele que só vai á sinagoga em Kipur, e sem medos avancei para um lugar no Muro que não existia. E subitamente o Muro pareceu maior e havia uma parte só minha. Beijei a pedra fria, beijada milhões de vezes por outros, cheirei o calcário com milhares de anos, abri os braços, aproximei a cara e ali fiquei a falar com D-us. Não sei se foi um minuto se foram 100, nem ao menos sei a língua que usei. Sei que naquele momento senti que é dali que eu sou e é com aquela gente, tão diferente de mim que quero estar. Emocionei-me, tremi, agradeci, pedi, prometi. Abandonei a pedra do Templo sem lhe virar as costas com a promessa de ali voltar no próximo ano: “L ‘Shana Haba’a B’yerushalayim”

Claro que comigo tem de existir sempre uma parte cómica. Estava eu nas minhas hesitações do vai não vai ao Muro quando se chegam dois imponentes rabinos ortodoxos que me perguntam o nome. “Reuven Ovadia!”. Reacção: “Aaaaaaaaaaaaaah… glorious name in honour of the Grand Rabi Ovadia Yossef”. Aperta-me cada um uma mão e começam a rezar, só interrompidos por uns Améns. E eu ali à rasca, com as mãos presas. Depois veio a pergunta de quem era a minha mãe e depois de mais uns “aahs”, veio o que eu já esperava: E que tal ajudar os pobres judeus? Por momentos pensei que me iam dar dinheiro a mim! Sim, um pobre judeu. Disse-lhes que era de Portugal, que o Governo de Sócrates não tinha piedade, que andávamos de tanga, mas nada surtiu efeito. Deixei-lhes com 30 xequels, o equivalente a 7 euros. No fundo, o único judeu que ficou pobre nesta história toda fui eu! Arre!

No dia seguinte deu-se a partida para o Mar Morto, e tal como previ num post anterior. Há locais que visitados em dias diferentes fazem toda a diferença, passe a redundância! Refiro-me ao Mar Morte e ao deserto que o abraça. Simplesmente fantástico e cheio de história. A aventura foi vivida num jeep 4×4 em pleno deserto, por entre riachos secos e em locais de que até as cabras teriam medo. Mas a vista de cima do Mar Morto, o olhar até à Jordânia, é uma sensação fantástica. Depois é passar mesmo por Sodoma e pensar na história. Juro, que não olhei para trás, não me fosse transformar em estátua de sal. Ou então avistar Qumran, o local onde há mais de 60 anos um pequeno pastor descobriu numa das milhares de grutas da encosta os famosos Manuscritos do Mar Morto!

Poderia passar a noite toda aqui a relatar o cheiro do sal e do enxofre, das enxurradas de surpresa que se abatem sobre este deserto e que o transformam num perigoso rio, ou no cous cous que comi ao jantar, ou ainda no quanto me emocionei ao ouvir cantar o Adon Olam, enquanto bebericava um café sofrível.

Amanhã aguarda-me um dos pontos altos de todas as minhas viagens: a subida a Massada. See u there!

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1 Comentário

Filed under Israel

One response to “Da noite de Jerusalém à chuva do Mar Morto

  1. Anónimo

    There are no words to describe what I feel when I read sth that you write! You have an extreme ability to make me see through your eyes…unbelievable ;)) just love it….*****

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