Monthly Archives: Fevereiro 2011

Massada – Bruxelas- Lisboa

Escrevo do aeroporto de Bruxelas. Enquanto esperava no lounge observo um judeu ortodoxo colocar os seus tefilins e fazer a sua resa matinal. Curiosa imagem; num mundo moderno, numa sala repleta de homens de negócios, há ali alguém que vive num mundo só seu, que está a falar com D-us, e que teima em resistir ao sinal dos tempos. Sorrio, num misto de tristeza e apreensão.

O dia de ontem foi para mim repleto de emoções, especialmente pela subida ao Monte Massada, onde se encontras as ruinas onde outrora foi uma bela fortaleza com dois palácios. Depois conto a história.

Agora…Lisboa espera por mim. Até já

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Da noite de Jerusalém à chuva do Mar Morto

Ontem à noite recordei-me do filme “Este País não é para velhos” quando saí à noite em Jerusalém.

Desde o início desta viagem que me tenho resguardado bastante de saídas nocturnas, isto para não falar em abstinência total. Eu sei que é um crime, mas a doença não me tem permitido. Mas ontem era de facto a únca oportunidade que tinha em visitar o Muro das Lamentações. Foi a minha quarta visita! E depois de jantar, acompanhado por dois amigos, um deles de há 38 anos (!), lá apanhámos um taxi que nos deixou na “Porta do Lixo”, e daí até ao Kotel são 2 minutos. A noite esta gelada. É que Jerusalém situa-se quase a 700 metros acima do nível do mar e aqui isto significa frio, muito frio! Para ajudarà festa, começou a chover!

Seja como for, lá estava eu diante do Muro, a tremer, e centenas e centenas de judeus ortodoxos a rezar numa sinfonia o mais desafinada possível. Olhava para os lados e via aquelas vestes negras, ares intimidadores e pensava para comigo “e esta a minha gente?”. E cada vez que havia um pequeno espaço no muro e me preparava para avançar, lá vinha outro casaco preto, de longos caracois no lugar das patilhas, roubar o espaço que era meu. Lá ia esperando e hesitando, enquanto me sentia um “estrangeiro”. Depois abri os olhos, olhei bem à volta, contemplei a diversidade que faz a beleza do judaismo, que nos faz todos iguais, o kosher e o não-kosher, o ortodoxo e aquele que só vai á sinagoga em Kipur, e sem medos avancei para um lugar no Muro que não existia. E subitamente o Muro pareceu maior e havia uma parte só minha. Beijei a pedra fria, beijada milhões de vezes por outros, cheirei o calcário com milhares de anos, abri os braços, aproximei a cara e ali fiquei a falar com D-us. Não sei se foi um minuto se foram 100, nem ao menos sei a língua que usei. Sei que naquele momento senti que é dali que eu sou e é com aquela gente, tão diferente de mim que quero estar. Emocionei-me, tremi, agradeci, pedi, prometi. Abandonei a pedra do Templo sem lhe virar as costas com a promessa de ali voltar no próximo ano: “L ‘Shana Haba’a B’yerushalayim”

Claro que comigo tem de existir sempre uma parte cómica. Estava eu nas minhas hesitações do vai não vai ao Muro quando se chegam dois imponentes rabinos ortodoxos que me perguntam o nome. “Reuven Ovadia!”. Reacção: “Aaaaaaaaaaaaaah… glorious name in honour of the Grand Rabi Ovadia Yossef”. Aperta-me cada um uma mão e começam a rezar, só interrompidos por uns Améns. E eu ali à rasca, com as mãos presas. Depois veio a pergunta de quem era a minha mãe e depois de mais uns “aahs”, veio o que eu já esperava: E que tal ajudar os pobres judeus? Por momentos pensei que me iam dar dinheiro a mim! Sim, um pobre judeu. Disse-lhes que era de Portugal, que o Governo de Sócrates não tinha piedade, que andávamos de tanga, mas nada surtiu efeito. Deixei-lhes com 30 xequels, o equivalente a 7 euros. No fundo, o único judeu que ficou pobre nesta história toda fui eu! Arre!

No dia seguinte deu-se a partida para o Mar Morto, e tal como previ num post anterior. Há locais que visitados em dias diferentes fazem toda a diferença, passe a redundância! Refiro-me ao Mar Morte e ao deserto que o abraça. Simplesmente fantástico e cheio de história. A aventura foi vivida num jeep 4×4 em pleno deserto, por entre riachos secos e em locais de que até as cabras teriam medo. Mas a vista de cima do Mar Morto, o olhar até à Jordânia, é uma sensação fantástica. Depois é passar mesmo por Sodoma e pensar na história. Juro, que não olhei para trás, não me fosse transformar em estátua de sal. Ou então avistar Qumran, o local onde há mais de 60 anos um pequeno pastor descobriu numa das milhares de grutas da encosta os famosos Manuscritos do Mar Morto!

Poderia passar a noite toda aqui a relatar o cheiro do sal e do enxofre, das enxurradas de surpresa que se abatem sobre este deserto e que o transformam num perigoso rio, ou no cous cous que comi ao jantar, ou ainda no quanto me emocionei ao ouvir cantar o Adon Olam, enquanto bebericava um café sofrível.

Amanhã aguarda-me um dos pontos altos de todas as minhas viagens: a subida a Massada. See u there!

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Pela primeira vez na viagem consegui dormir directo, num total de dez horas. Isso, um belo banho e a barba feita fazem maravilhas ao corpo e ao espírito de qualquer homem. Isto é até descer e ir tomar o pequeno almoço. É que o cheiro de todas aquelas saladas e misturas deixam antever um estômago à prova de tudo, o que não é o meu caso.

O hotel em Tiberíades onde passei a noite estava na melhor localização possível, bem junto ao Mar da Galileia. A vista do amanhecer é fantástica, com os primeiros barcos a iniciarem as travessias logo pelas sete da manhã. Por momentos pensei sonhar quando ouvi o hino americano a sair de um dos barcos, mas não. É mesmo assim, a malta da terra do Tio Sam faz questão de atravessar o Mar da Galileia (que não é mais do que um grande lago) a ouvir ” The Star-Spangled Banner”.

Impressionante também é o espectáculo nocturno de água, luz e som mesmo à beira do lago. É de graça e valeria a pena se não fosse tão piroso. Eu explico! Estando num local com tanta história suposto era que, não caindo em espectáculos pirosos e previsíveis, ao menos existisse alguma história. Nada. A música é tecno e sempre a bombar e até a projecção de uma bola de futebol na água podemos ver. Piroso ao quadrado, mas não menos espectacular.

Largámos logo cedo de manhã rumo a Tzfat (ou Safed), uma cidade que curiosamente é geminada com a Guarda. Particularmente é uma cidade que gosto muito, tem qualquer coisa no ar. Foi ali que dizem ter sido escrita a Cabalah, o livro místico do judaísmo. A pequena cidade situa-se no alto de um pequeno monte e encontra-se extremamente desorganizada, com obras em curso, mas vale a pena uma visita demorada. O conselho é perder-se nas ruas estreitas e cheias de charme de Tzfat. Em cada janela ou porta há um apontamento que merece ser fotografado. Depois é entrar numa das inúmeras galerias de arte moderna e perder a cabeça. E já que se fala em perder a cabeça, entrar na sinagoga de Abuhav (1490)  é um regalo aos olhos e uma experiência que será guardada a sete chaves para sempre.

Foi aquyi perto que comprei a minha mezuzah. Trata-se de uma pequena caixa colocada à entrada de um lar judaico, que contém um pequeno pergaminho com versos em hebraico retirados da Torah, entre os quais se encontra o Shema Yisrael (“Ouve, oh Israel,  o Senhor nosso D-us é o único D-us”. Desta forma a casa fica abençoada. Infelizmente a minha mezuzah foi vandalizada à vários anos, uma vez que se encontra no exterior do lado direito, o que explica os vários azares que tenho sofrido. 🙂 Quem ficar curioso em saber mais sobre as mezuzah aconselho uma pesquisa mais aturada, porque existem várias curiosidades na sua elaboração. Por exemplo, quem as escreve, uma vez começado o processo da escrita não pode parar ou levantar a pena.

O tempo não era muito e partimos novamente rumo a Tiberíades, desta feita para o Museu de Dona Graça Nassi, também conhecida por Senhora. Vale a pena tabém investigar, a história de uma judia portuguesa, a mulher mais rica do mundo no seu tempo, que primeiro sonhou com a construção de uma pátria para todos os judeus em Israel e que chegou a adquirir Tiberíades para esse efeito. Fantástico!

E finalmente, no caminho para Jerusalém demos um pulo ao Mar Morto. Pura desilusão, embora me reserve para uma segunda opinião, já que no próximo sábado vou lá passar o dia. Sim, ninguém se afoga, tal a concentração de sal; sim, arde para caraças; sim, tem gente a bezuntar-se de lama e a fazer figuras tristes; tem ainda grupos de missionários em alegres cantorias e em círculo, como se fossem os tipos mais felizes do mundo. Ah, e sim vendem cremes do mar morto!

Agora já estou em Jerusalém, com o meu multibanco a não funcionar (o que é uma alegria). Esta noite vou dar um salto ao Muro das Lamentações (Kotel) e passear no bairro judaico. Amanhã espero ter um dia verdadeiramente especial, pois será a primeira vez que estarei em Shabat em Jerusalém. 🙂

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O corpo é que paga

A velha música do Variações bem poderia servir de mote à minha actual situação física. Uma tosse que não me larga, parece que as entranhas vão sair a qualquer momento, uma febre que fas os ossos baterem uns nos outros e criar um novo estilo musical. Resumindo, durmo com dois edredons, um pullover e um lenço na cabeça para me tapar as orelhas. Acreditem que não é uma imagem feliz da minha pessoa. Mais pareço um leproso!

O pior é que ao copntrário da música do Variações, a cabeça teve de facto juízo e, contudo, o corpo é que pagou.

Já deixei Telavive para trás. Dizem que é a cidade que nunca dorme. Não faço ideia! O que eu sei é que para mim foi a cidade do «xi-xi e cama». Mas de facto impressiona a mentalidade aberta e cosmopolita, a par com a variedade de caras. É de facto um melting-pot formidável que não consegui viver em pleno.

Agora estou já em Tiberíades, nuym razoável hotel com vista para o Mar da Galileia. No fundo é um lago onde se encontram as maiores reservas de água doce de Israel e que tem a particularidade de se encontrar a mais de 400 metros abaixo do nível do mar, o que o torna único no seu género. Para dizer a verdade não tenho muito para contar sobre o local, acabei de chegar. Apenas posso dizer que jantei mal e que o expresso aqui é uma trampa. Ah, convém também dizer que o hotel está cheio de pessoas cuja idade mínima deve rondar os 75 anos. Ao menos neste aspecto promete ser calmo! 🙂

Amanhã a aventura continua, com uma visita matinal a Safed, um almoço no museu da Senhora Nassi e um pulo ao Mar Morto. Isto se entretanto eu não pifar de vez com esta gripe maldita.

Shalom Alehem

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A Grande Sinagoga de Jerusalém

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De Telavive a Beit Lehem

Estranhamente, estava à espera de usual novela mexicana à chegada ao aeroporto Ben Gurion, à imagem do que sucedeu o ano passado. O normal é ser bombardeado por um chorrilho de perguntas de segurança, cada uma a disputar a imbecilidade à outra que se segue. Nada disso! É certo que tive de explicar algumas coisinhas no meu passaporte, o porquê de tantos carimbos, o que vinha ali fazer, quem era eu (esta ainda estou para descobrir!), ou sobre o que é que escrevia e o que iria eu escrever sobre Israel. A resposta foi pronta e com o sorriso mais inocente de todos: O que vou escrever? Pois isso depende da maneira como me tratarem! E eis que a porta se abre e eis-me de novo «livre». Até mesmo o nome do hotel acertei, quando perguntado: Grand Beach Hotel. Ísto com um sorriso hipócrita a pensar mas é na “Grande P…a” :-). E de facto o hotel quase que faz justiça ao nome. Já me apercebi que não se pode esperar grande coisa da hotelaria em Israel ou pelo menos não está ao nível da de Portugal, nem por sombras!

O destino hoje foi um kibutz perto de Beit Lehem, o mesmo é dizer Belém, o mesmo é dizer territórios árabes, o mesmo é dizer… afasta-te da janela que podes levar com uma pedrada. Felizmente nada aconteceu. Pode haver uma explicação, é que choveu torrencialmente todo o dia. Aqui isso é considerado uma benção, uma vez que só chove uns 20 dias por ano. E nós… bingo! Pois com chuva nmão há intifada que resista. Não deve dar jeito algum estar com um chapéu de chuva na mão e uma pedra na outra. Enfim…

Pois mal se chegou ao Kibutz. Esperem, é melhor explicar o que isto é. Por breves palavras, trata-se de uma organização social de inspiração socialista, um campo onde as famílias vivem e trabalham e partilham tudo (menos as mulheres!). Não há dinheiro, todos trabalham e têm os mesmos direitos e deveres. Aqui até o médico ordenha vacas 3 vezes por semana. Existem casas, todas iguais e o doinheiro ganho nas actividades agricolas ou outras do Kibutz vai para uma grande conta. Por exemplo, este que visitei era especializado em vacas, galinhas e…pasme-se!!!…aeronáutica. è verdade, produzia paineis para aviões, barcos e até tanques. Ali, no meio do nada. Paredes meias com vacas e galinhas… tchananam!!!! A isto chama-se sobrevivência. Impressionante!

E o melhor de tudo foi a comida servida na cantina. Ali todos comem por igual e quantas vezes quiserem. Portanto, durante uma hora eu fui membro de um kibutz e deliciei-me com frango, cous-cous e um sem número de saladas. Só me irrita é tentarem-me servir Tang a todas as horas.

Seguiu-se depois uma pequena viagem a Telavive, um pequeno passeio molhado e um visita à grande sinagoga de Jerusalém. Impressionante! A estrela aqui foi o rabino da sinagoga, um nova-iorquino reformado que não parava de contar anedotas. Respondemos-lhe que não podíamos ficar mais dias em Israel porque tempo é dinheiro. Ao que ele retorquiu: o mais importante é o Love. Isso sim, por isso “I LOve money” :-))

E pronto, agora doente, sim estou com febre e uma tosse de merda, vou mas é procurar algo para jantar. Amanhã há mais, se o corpo deixar!

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Contagem decrescente para Israel

Já sei que não escrevo aqui com a regularidade que devia. Mas como escreveu um dia Fernando Pessoa, “Ai que prazer não cumprir um dever. Ter um livro para ler. E não o fazer. Ler é maçada”.. Portanto, nada de obrigações, estamos entendidos?

Estou prestes a partir para a Terra Prometida (para os Judeus), Terra Santa (para os Católicos): Israel. Aguarda-me uma viagem de uma semana que me levará a locais como Tel Aviv, Jerusalém, Tiberíades, Tzfat, Mar Morto, Massada, etc. A viagem promete ser repleta de aventuras e histórias para contar. Será a minha terceira viagem a este destino, e que destino! Israel é daqueles países que fazem lembrar um livro do Asterix. Ou seja, cada vez que o visitamos descobrimos um ângulo novo, uma perspectiva diferente. Para mim é um regresso «a casa», uma casa estranha, que choca, muitas vezes agride, mas casa.

Assim, durante os próximos nove dias fica aqui o meu compromisso de escrever diariamente a relatar a minha aventura na terra do “leite e do mel”.

Até já…

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