Monthly Archives: Novembro 2007

Um paraíso Para…ty!

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Reza a lenda que quando Deus estava a distribuir as terras do mundo, o Diabo veio reclamar a sua parte. Sem saber bem o que fazer, Deus apontou para o primeiro pedaço de terra que avistou ao longe, escondido entre a terra e o mar, e disse: “Lá, aquilo é para ti.” O facto deu origem a uma confusão no céu que terá estado na origem da expulsão do Diabo e da sua legião de seguidores para o Inferno. E para não se rebaixar, o dito rejeitou o presente, dando então a ideia a Deus de criar no local um pequeno pedaço do Paraíso”. A história da origem do nome de Paraty é contada pelos locais com visível orgulho. No entanto, há explicação bem mais simples (e lógica) para a denominação do pequeno município brasileiro do sul do estado do Rio de Janeiro: o nome vem do tupi Peixe Branco.

 

Situado a meio caminho entre o Rio de Janeiro e São Paulo, o município de Paraty conta actualmente com pouco mais de 30 mil habitantes, situando-se na Baía da Ilha Grande. A história da cidade confunde-se com a própria história de descoberta do Brasil, sendo local de entrada de expedições de aprisionamento de escravos índios, local de passagem do ouro transportado de Minas Gerais no séc. XVIII e, mais tarde, porta de entrada clandestina de escravos no Brasil. Mais tarde, já no século XIX surge o Ciclo do Café e com ele a cidade vira-se para a produção de aguardente, chegando a ter cerca de 200 destilarias. Por isso é que ainda hoje Paraty é sinónimo de boa pinga. O facto foi até imortalizado pela famosa Cármen Miranda que cantou: “Vestiu uma camisa listrada e saiu por ai em vez de toma chá com torrada bebeu Paraty.”

Findo este período a cidade entra em decadência, ficando votada ao abandono durante quase um século. Curiosamente, o sucesso de Paraty fica em dever-se em muito a este abandono, uma vez que manteve intacto o centro histórico da cidade, marcadamente colonial. Nos anos 60 do século passado é reconhecida como Património Histórico e Artístico Nacional.

 

O centro histórico é ordenado geometricamente, dominado por casarios pintados de branco com faixas rosa ou azuis pintadas, onde sobressaem estranhos símbolos, em torno de janelas de guilhotina, remetendo os visitantes para os tempos coloniais, como se de um cenário de filme se tratasse. Mas toda esta organização e mesmo os tais símbolos como a estrela de David ou de Salomão, a lua minguante ou crescente, entre outros, é atribuída à maçonaria, já que Paraty foi sede de uma loja maçónica denominada União e Beleza.

 

Mas voltemos ao centro da cidade, onde é proibida a entrada de veículos, e nas ruas impera a pedra escura irregular. E é tão irregular que se atribui ao piso a principal razão para os paratienses raramente cumprimentarem alguém quando se cruzam na rua, é que estão demasiado ocupados a olhar para o chão para não caírem.

 

Actualmente o centro de Paraty é dominado por inúmeras pousadas de charme, óptimos restaurantes e lojas de artesanato, onde os artistas fazem os seus trabalhos à vista dos transeuntes.

 

Mas para lá do interesse histórico da cidade, Paraty é dominada pela sua baía recortada, numa extensão litoral de 180 quilómetros, dando origem a várias enseadas, penínsulas e ilhas, 55 ao todo. Já a sul encontra-se a vila de Trindade, um local de pescadores, mas dominado por praias dignas de um postal. A curta viagem vale a pena, apesar de no caminho atravessar um morro com o elucidativo nome de Deus-me-livre. Espera-o a Praia Brava, onde não falta uma fonte de água doce, segue-se a Praia do Cepilho, a de Fora e a dos Codois, terminando na paradisíaca Praia do Cachadaço.

 

De volta à baía pululada por inúmeras ilhas os cenários são tantos e tão diversos que aconselha-se um passeio de barco. E um dia não chega. Aconselha-se uma paragem na Ilha do Catimbau, onde um único restaurante assente nas pedras proporciona uma experiência memorável.

E por falar em experiências, nada como beber uma cerveja gelada no Café Paraty, local de famosos, almoçar no Margarida Café, tomar a pinga Maria Isabel, um belíssimo alambique situado à beira mar, percorrer o antigo Caminho do Ouro, e fechar a tarde com um retemperador mergulho numa das inúmeras cachoeiras da região.

De facto, quem hoje visita Paraty agradece ao Diabo não ter reclamado o local para ele.

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Búzios… encantados

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Búzios, ou mais correctamente Armação de Búzios, tem algo de familiar para o português que pela primeira vez a visita. Para começar pela escala de construção, uma vez que os edifícios não ultrapassam os dois andares, com um estilo arquitectónico próprio onde predomina a utilização de materiais rústicos. Depois, em Búzios tudo começa e acaba em torno da Rua das Pedras, onde se encontra várias lojas de roupa de marca, artesanato e restaurantes cuja qualidade ombreia com o que de melhor o Brasil tem para oferecer.

Situada a 165 quilómetros do Rio de Janeiro, na Região dos Lagos, e fazendo fronteira com a cidade de Cabo Frio, Búzios é uma península com 8 quilómetros de extensão e mais de duas dezenas de praias. Mas não é no número de praias que reside um dos encantos da região, mas mais pela sua variedade. De um lado a península é banhada pelas correntes marítimas do Equador e do outro pelas águas geladas do Pólo Sul. Assim, existe praticamente uma praia ao gosto de qualquer tipo de turista. Desde a mais isolada e de difícil acesso reservada à prática do nudismo, como é o caso da Olho-de-Boi; às mais pequenas como a Ferradurinha ou Azedinha; a cosmopolita João Fernandes ou a mais badalada Geribá, onde o surf é rei e senhor. A dificuldade mesmo vai ser na escolha.

 Porto de Corsários

Por volta do século XVII, Búzios era porto de abrigo de corsários e piratas, que a utilizavam para contrabandear pau-brasil e vender escravos. Ainda nesse século, e como resultado de batalhas sangrentas, os franceses foram expulsos da região, tendo daí resultado a quase extinção da população indígena – os índios Tupinambás. No final desse século o lugarejo de Búzios era constituído por apenas 20 habitações.

Só no início do século XX é que a vila começa a assistir novamente a alguma movimentação, com a chegada de imigrantes portugueses que, juntamente com a população local de pescadores, introduziram novas técnicas de pesca. Foi neste período que foi construída uma estrutura para capturar baleias – Armação de Baleias -, tendo dado origem ao nome da própria vila: Armação de Búzios. Os ossos das baleias capturadas eram então enterrados na praia ao lado da Praia da Armação, tendo estado na origem do seu nome: Praia dos Ossos.

Mas só nos anos 50 é que Búzios começou a despertar lentamente para o turismo, tornando-se local de férias da elite carioca e paulista que ali começaram a construir casas. No entanto, o mundo ficou a conhecer Búzios quando, em 1964, a conhecida modelo francesa Brigitte Bardot escolheu o local para passar um mês de férias. Desde aí Búzios entrou no mapa e não mais saiu dele. A fama foi tanta que mereceu mesmo uma estátua da estrela, sentada em cima de uma mala, a contemplar o mar… na Orla Bardot!

 O que fazer?

Actualmente, mais de quatro décadas passadas de tão ilustre visita, Búzios mantém a sua aura intacta. Desenvolveu-se o suficiente. Cresceu mas não desmesuradamente. Os encantos estão lá todos. Assistir ao pôr-do-sol na Praia da Armação ou no porto de madeira ali construído, e que serve de ponto de partida para as inúmeras excursões de barco, é uma experiência inolvidável. O mar vira prata rendilhada, onde sobressaem as cores alegres dos caícos (barcos a remos). Depois é só seguir pela Orla Bardot até à Rua das Pedras, lentamente, sem pressas. Comer bem não será o último dos seus problemas, tal a qualidade e diversidade da oferta existente. Enumerá-los era incorrer no grave pecado de esquecer um bom prato, mas há desde tailandeses a italianos ou franceses. O difícil mesmo será encontrar um restaurante de comida típica…brasileira.

Quanto à noite propriamente dita, adivinhe onde tudo se passa? Pois é… na Rua das Pedras, para não variar. No Conversa Fiada pode observar quem passa na rua, no Zapata vai viajar até ao México, no Anexo’s Bar mergulho no moderno estilo lounge, para música ao vivo tem o Pátio Havana, o Chez Michou serve-lhe uns crepes quando a fome já aperta e se quer mesmo gastar energias até de manhã o “point” é a discoteca Privilege.

Quanto a alojamento, Búzios mantém-se fiel às suas origens. A excepção vai para o Hotel Atlântico Convention & Resort, que dispõe de 135 apartamentos. Mas na cidade e arredores quem mais ordena são as Pousadas de Charme (umas com mais charme que outras). Destaque para o Casas Brancas Boutique Hotel e Spa, um pequeno paraíso de 32 quartos e o Ville La Plage Pousada & Resort, na Praia João Fernandes. Mais para o interior, escondido no meio da vegetação surge o elegante La Foret. Estas duas últimas pousadas tem a curiosidade de terem como proprietário um português rendido aos encantos de Búzios.

Mas Búzios é assim mesmo. O difícil mesmo é resistir-lhe. E quando na hora da partida, uma parte de nós passa a sentir-se Buziano ou no mínimo… a invejá-los.

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Um latino em Londres

Aquando da minha passagem por Londres tive um agradável jantar com jornalistas de todo mundo no The Swiss Re Tower, mais conhecido por “The Gherkin”.

 

Tratasse do segundo edifício mais alto de Londres, com 180 metros. O cognome “Gherkin” foi dado pelo jornal “The Guardian”, em 1996, e faz referência a um pepino. Mas não é para contar a história da torre que aqui venho.

 

Ora no jantar, que partilhava com um japonês, uma americana, uma francesa e um inglês, falava-se de fumar e da nova lei inglesa que proíbe fumar em espaços fechados. Nada a obstar até porque a lei chega às nossas paragens dentro de mês e meio. Mas o que discutia era o radicalismo inglês de não permitir que se fumasse mesmo na rua debaixo de telheiros. Não raras as vezes era convidado por seguranças para ir para o passeio, desabrigado, à chuva, fumar. O inglês achava tudo perfeitamente natural. Eu e a francesa tentávamos explicar que essa não é a forma europeia de fazer as coisas. Era a americana, importada e imposta.

 

Claro que, a custo, concordo que não se fume em espaços fechados, mas defendo a liberdade dos donos para escolherem se querem ou não ser um local de fumadores. Simples. É como ir a um bar gay… só lá vai quem quer e quem vai…sujeita-se. E cada um é livre de ir…ou não ir. Mais simples que isto não há.

 

Agora o que discutíamos era passar do 8 ao 80, como que a penalizarem, a nós fumadores, por séculos de “libertinagem”. A Europa foi construída assente no respeito pelo espaço de cada um e pela não interferência do Estado nas opções individuais. É nisto que assenta a UE . E se um grupo de fumadores quer fumar em grupo num espaço só para eles… porque não?

 

E é nesta discussão que chegamos à conclusão que há duas maneiras de ver as coisas: a latina e a anglo-saxónica.

 

Mesmo agora, quando o Rei Juan Carlos, perante o facto de Hugo Chávez, presidente da Venezuela, ter acusado Aznar de fascista, ter dito “Por que não te calas?”, vem ao de cima a essência de ser latino. É que se fosse um anglo-saxónico… comia, calava e mais tarde apresentava um protesto formal. Já os latinos são diferentes! Foi um raro momento em que tive pena de não ser espanhol. Ah, grande Rei!

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A primeira viagem do Judeu Errante

Neste momento estou em Londres, num misto de work & leisure.

Já toda a gente conhece Londres. E quem ainda não pôs cá os pés não tem desculpa. Viajando por uma qualquer low-cost, easyJet por exemplo, custará em torno de 150 euros já com taxas. O truque é reservar com antecedência. Quanto maior ela for… mais barato será a viagem, podendo mesmo ficar pelos 50-60 euros. Aterra-se no aeroporto de Gatwick e daí a sugestão é apanhar o Gatwick Express, um comboio que nos leva a Vitoria Station, bem no coração da cidade. O comboio demora 30 mn e tem saídas de 15 em 15 minutos. Aconselho a pré-compra pela internet já com o bilhete de volta incluído, o que equivale a uma poupança de 15%, custando cerca de 24 libras.

Em Vitoria Station a sugestão é comprar um bilhete de metro para 3 dias, zona 1-2, onde se encontram as principais atracções, que fica pelas 17 libras.

 Quanto a hotel, pela variedade de escolha vá a, p.e., www.booking.com, ou se quer mesmo um pechincha arrisque no www.lastminute.com.

Pronto, está preparado para partir à descoberta de Londres. Nesta época aconselha-se o uso de um impermeável, uns ténis bem comfortáveis (irá andar bastante), luvas, cachecol e um bom polar. O ideal será vestir uma mera t-shirt e um polar, pois invariavelmente qualquer espaço debaixo de tecto tem o ar-condicionado regulado para os… 35 graus!

 Quanto a locais para visitar a escolha é infindável. Desde os mercados de Portobello ou Camden até ao Bristish Museum, que agora tem uma fabulosa exposição dos guerreiros chineses de Terracota, ou a exposição de Tutankamon patente a partir da próxima quinta-feira, dia 15; ou um passeio pelo Kesington Garden, com direito a espreitar o Kesington Palace, onde vivia a Princesa Diana; uma volta pelo Hyde Park, o maior jardim da cidade, com paragem obrigatória no Speakers Corner, um local dado a manifestações onde cada um diz o que quer.

Compre um guia da cidade. O meu conselho iria para o da American Express mas o seu tamanho aconselha o uso de uma mochila. Mas lá encontra todas as dicas e mais algumas.

Quanto a refeições a escolha é infinita. Há de tudo e para todos os gostos. Por curiosidade, uma destas noites mergulhe na Chinatown (que foi o que fiz hoje) e experimente um daqueles patos caramelizados. Prepare-se porque as filas para arranjar uma mesa vão fazer aumentar a fome.

 Nota Pessoal – é a primeira vez que viajo com a minha mãe e também é a primeira vez que ela deixa o meu pai e irmã em casa e cede a um dos meus inúmeros convites para «conhecer o mundo mais do que Cascais». Tem sido uma aventura fantástica, mas só me pergunto quando é que deixei de ser filho e passei a ser pai. Curioso. Agora sou eu em cuidados com a minha mãe e ela descansada visivelmente orgulhosa no desenrascanço do filho. Mesmo quando nos perdemos… ela confia. Vá-se lá entender.

 Conselho – Fernando Pessoa dizia que «sou do tamanho daquilo que vejo e não do tamanho da minha altura». Dá que pensar. Daí a necessidade de viajar, ver coisas diferentes e com isso ser maior.

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Judeu Errante: A razão do nome

Apesar do seu autor ser jornalista, este blogue não tem um estatuto editorial definido. É apenas assumidamente sionista, defensor do judaísmo e das suas tradições, sem que isso tolde o raciocínio do seu autor.

A razão deste blogue se denominar Judeu Errante é simples (ou complexa). Judeu Errante é uma personagem mítica da oralidade dos primórdios do cristianismo. Reza a lenda que Ahsverus era um judeu que trabalhava numa oficina de sapateiro em Jerusalém. A dita oficina localizava-se numa rua onde os condenados à morte eram forçados a passar carregando a cruz. Na Sexta-Feira da Paixão, Jesus Cristo, passando por aquele mesmo caminho carregando a sua cruz, foi importunado com ironias pelo sapateiro Ahsverus. Jesus, então, teria-o amaldiçoado, condenando-o a vagar pelo mundo, sem nunca morrer, até a sua volta, no fim dos tempos.

Ao longo de séculos, tem-se reportado avistamentos deste suposto Judeu Errante um pouco por todo o Mundo.  Desde a Síria à Itália, passando pela Alemanha e Brasil.

 Independentemente da origem cristã da história e de ela se reportar a um suposto acto menos bondoso, o facto de se referir a um judeu condenado a errar pelo mundo, sempre em viagem, tem algum paralelismo com a vida do próprio autor deste blogue.

 O Judeu Errante foi, inclusivé, algo da atenção de escritores e poetas. A título de exemplo cito o grande Vinicius de Morais:

Hei de seguir eternamente a estrada
Que há tanto tempo venho já seguindo
Sem me importar com a noite que vem vindo
Como uma pavorosa alma penada
Sem fé na redenção, sem crença em nada
Fugitivo que a dor vem perseguindo
Busco eu também a paz onde, sorrindo
Será também minha alma uma alvorada
Onde é ela? Talvez nem mesmo exista…
Ninguém sabe onde fica… Certo, dista
Muitas e muitas léguas de caminho…
Não importa. O que importa é ir em fora
Pela ilusão de procurar a aurora
Sofrendo a dor de caminhar sozinho
A partir de hoje…. estão abertas as hostilidades. Bem vindos!

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Fénix

Tal como a Fénix que renasce das cinzas, este novo espaço, Judeu Errante, nasce do Judiaria de São Bento. Este último foi a minha estreia na aventura dos blogues. Durou dois anos e meio e acabou quando tinha de acabar. A vida muda e a minha, apesar de aparentemente não sair do mesmo lugar, está em constante devir. Além disso, já há dois anos que não moro na Rua de São Bento. Deixava de fazer sentido o próprio nome do blogue.

Aqui neste espaço desafio-me a escrever sobre as minhas viagens. As viagens geográficas que faço por esse mundo fora, com observações e ideias. E as viagens interiores, onde procuro, dentro das minhas limitações, encontrar respostas para essas mesmas observações do estado de alma.

Ao contrário do blogue anterior não serão aceites comentários injuriosos. Aqui debatem-se ideias, trocam-se experiências, não se discutem pessoas.

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