Cão como eu!

Desde que me lembro ser gente sempre tive cães. O primeiro foi mesmo um imperial pastor alemão, o Roni. Mas sei que antes dele ouve outro, também da mesma raça, chamado Fritz.

O Roni acompanhou-me durante toda a infância e parte da adolescência. Vivia agrilhoado no jardim, com raiva de tudo e todos menos dos seus donos. Dedicava especial ódio ao carteiro. E rezam as lendas lá de casa que certo dia um bêbado terá apontado o dedo a alguém do burgo e o resultado foi… um dedo a menos! O Roni era um cão tão forte que era capaz de arrastar a casota de cimento onde dormia durante vários metros; e a coleira estranguladora chegava mesmo a enterrar-se na carne. Fazia tudo para proteger a casa e os seus donos. Outra das lendas caseiras é que quando fui hospitalizado o pobre do animal deixou de comer. O Roni morreu numa noite de Natal sem aviso que não o da velhice. E quando partiu deixou um vazio.

Seguiu-se depois o Fritz, um pastor alemão que acho que falava mais belga. Viveu muitos anos mas a memória que me deixou foi pouca.

Esta é a minha viagem ao mundo dos cães, dos meus cães.

Também me recordo de vários miniaturas que a minha mãe foi coleccionando ao longo dos anos, invariavelmente caprichosos e todos eles com uma gracinhas para animar os convidados. Nada de relevante, portanto.

O meu primeiro cão foi afinal… uma cadela, a Vodka. Uma rafeira preta como o carvão que me foi dada no distante ano de 1991, andava eu na Universidade do Algarve. Durante um ano acompanhava o meu percurso diário até à porta da sala de aula, orgulhosamente ostentando um lenço azul com cornucópias que fazia a vez de uma coleira. O nome dela esteve ligado com a sua primeira noite em minha casa, lá para os lados da Ilha de Faro. Como o ganir da primeira noite não cessava optei por adicionar umas gotas de vodka à ração e foi remédio santo.

Mas a minha vida mudou em definitivo quando, há cerca de seis anos, a Maria entrou lá em casa. Patuda, orelhuda, com um olhar triste que é próprio da raça. É a fêmea que há mais anos me atura de forma consecutiva. Nunca resmunga e está sempre disposta para brincar; para me dar as boas-vindas com o seu boneco de peluche na boca; para me aquecer nas noites solitárias de Inverno. A Maria não cobra ou, melhor, o que ela cobra é insignificante para aquilo que ela me dá. E sempre que ficamos afastados um do outro por vários dias, sinto falta de enfiar o meu nariz perto das suas orelhas e inspirar aquele cheiro que é tão característico dos bassets.

Alguém disse que quem nunca teve um cão não pode saber o significado da verdadeira amizade. É um facto, a Maria é a minha melhor amiga. Triste ter como melhor amigo um cão? Só quem nunca teve um poderá dizer tal coisa. Longe das americanices do “Marley e eu”, recordo-me sempre de um pequeno livro de Manuel Alegre, “Cão como nós”. E é isso… a Maria… é um cão como eu!

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Regresso à Boa Vista

 É curiosa a forma como se vive um destino, como se olha para ele. A perspectiva é tudo, o ângulo de onde se olha. É certo que a experiência num destino é irrepetível. Podemos visitá-lo três vezes e a cada vez descobrimos coisas novas, cheiramos outros aromas, ouvimos sons até então mudos.

Com Cabo Verde não é diferente. Este ano fui três vezes à Ilha da Boavista, ou melhor, à Boa Vista, e descobri três ilhas diferentes.

A minha última visita aconteceu na passada semana, desta feita longe dos resorts do tudo incluído, numa casa particular. E aí descobre-se um outro Cabo Verde mais próximo com a realidade. E não, este meu desabafo sob a forma de texto não é para enaltecer as virtudes turísticas da Ilha. É para falar da vida, da vida deles e de como se cruzou com a minha.

Para colocar as coisas em perspectiva, a Boa Vista tem tantas cabras como a Terceira tem vacas. Aliás, cabras, burros e gafanhotos batem por larga maioria o número de habitantes da Ilha. E tirando a vila de Sal Rei, tudo o resto parece ser paisagem… lunar. Vamos por partes. Sal Rei é uma vila costeira, a capital da ilha, resguardada por um Ilhéu com o mesmo nome. A praça principal é onde tudo (não) acontece. Um jardim com uma fonte (sem água), uma esplanada de nome Silves mas com uma bica aceitável, wi fi gratuito mas com velocidade do terceiro mundo, um mercado municipal aceitável e um bar/café chamado Cocoa que mais parece a entrada no Comboio Fantasma da saudosa Feira Popular, dada a escuridão ali reinante.

Na Boa Vista tudo é caro, muito caro. A ilha não produz nada, se exceptuarmos o queijo de cabra e mesmo esse é preciso saber onde o comprar. E se falarmos de comida, não só é caro como a qualidade é discutível. O comércio na ilha está inevitavelmente nas mãos de chineses (para não variar) e de italianos com passados pouco recomendáveis. Os restaurantes são de qualidade sofrível, tirando duas ou três excepções. E aqui o primeiro lugar do pódio vai para o restaurante da Bia, bem atrás da praça principal. Típico, despretencioso, local, saboroso e barato. A cachupa que ali comi, regada com uma Sagres geladinha, fizeram-me ir ao céu.

Curiosamente, sendo a Boa Vista uma ilha pequena, todas as restantes povoações não estão à beira mar. Estranho, não? Rabil, Povoação Velha, João Galego ou Norte são nomes de povoações, que mais não passam de agrupamentos de pouco mais de uma dezena de casas. Depois há as estradas… ou, melhor dizendo, picadas. Ali quem não tem um 4×4 não é ninguém.

Outro pormenor… as casas nunca estão acabadas. Ou por outra, estão… mas não estão. Entenderam? Como dar por terminada uma casa implica o pagamento de um imposto ao município… ninguém as termina. Rara é a casa onde o andar térreo se apresenta pintado e em bom estado e o primeiro andar surge com os tijolos à vista.

Quanto ao crioulo… há apenas duas expressões que precisa saber: Tudo derêt? O mesmo é perguntar se está tudo bem. A outra é Ká Tem e é a mais utilizada na ilha. Ká Tem significa Não Há! Por exemplo, vai a um café e olha para o lado e observa o vizinho a comer uma tosta mista… e fica com vontade de comer uma torrada. Chama a empregada e pede uma torrada. Resposta? Ká Tem. Mas acabou o pão? Não, não! Temos tosta mista, mas ká tem torrada!! 🙂

A vida na ilha faz-se ao ritmo da morna, devagar, embalada. E mesmo os portugueses que por lá param, expatriados, parecem contagiados com este ritmo.

A Boa Vista é de facto abençoada com praias fantásticas, com especial destaque para a de Chaves e de Santa Mónica. Mas um olhar mais atento revela uma desilusão maior. O mar aqui é selvagem, a lembrar que o Atlântico não dá tréguas. As ondas rebentam bem em cima da areia, deixando espaço apenas aos destemidos para um mergulho e umas braçadas. O melhor local para nadar é a Praia do Estoril, abrigada pelo já referido ilhéu.

Lugares especiais há dois: Praia da Varandinha, talvez porque para lá chegar se tenha que penar por um caminho de cabras ou, às vezes, por caminho nenhum; e a Espingueira, uma aldeia abandonada, parcialmente recuperada por uma italiana que ali ergueu um turismo rural, a Spinguera, de grande qualidade. O local tem realmente magia. O pôr do sol enquanto se saboreia uma Strela, a cerveja local, entra directamente para a galeria dos momentos kodak! E depois, para apreciadores de bom café como é o meu caso, ali se pode saborear a melhor bica da ilha!

Mas onde fiquei com a real perspectiva da ilha foi quando decidi cozinhar e, para isso, fazer compras. Onde há pão, não há fruta, onde há fruta não há vinho, onde há vinho não há peixe, onde há peixe não há queijo, onde há queijo não há pão, onde há pão não há legumes, onde há legumes não há mais nada! Entendido? Ou seja, coxinhar um prato simples implica a visita a cinco locais distintos, no mínimo.

Mas relaxe. Está na Boa Vista. Não há pressa. Afinal, vai a correr para onde?

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Boa Vista, o paraíso mora aqui ao lado

Vou começar por colocar os pontos nos ”is’. Se procura um destino turístico onde a animação nocturna é uma constante, pululado por bares e discotecas; onde as lojas de roupa de grife se sucedem em ruas pedonais; onde existem museus e exposições; com inúmeras esplanadas à beira mar; em que pode comprar um “Happy Meal” num qualquer McDonalds de esquina; onde existem estradas de alcatrão e com duas ou mais faixas; e em que a variedade de restaurantes é tanta que o difícil é escolher, fica desde já a saber que a Ilha da Boa Vista, no arquipélago de Cabo Verde não é decididamente para si. O oposto é genuinamente verdade.

Estamos perante um destino até agora virgem. Onde o tempo não tem tempo, onde as estradas não são estradas, onde o peixe sabe realmente a peixe e onde as pessoas são efectivamente humanas. Situada a 15 minutos de avião da turística Ilha do Sal, a Boa Vista é em tudo diferente da sua irmã. A começar pelas praias! A ilha conta com uns impressionantes 55 quilómetros de praias praticamente intocadas, sendo a terceira maior das dez ilhas que constituem Cabo Verde e das menos populosas. Est realidade está prestes a mudar, uma vez que a explosão turística da ilha, com a abertura dos hotéis Iberostar e RIU (Karamboa, Luka Kalema e Touareg) tem levado à deslocalização de muitos cabo-verdianos oriundos de outras ilhas, especialmente de São Vicente e Santiago. A este fenómeno junta-se o facto de ser a ilha que mais próximo se encontra da costa africana, a uns meros 455 quilómetros, o que tem vindo a incentivar a entrada de imigrantes senegaleses.

Após sobrevoarmos a árida ilha do Sal é um instante até chegar à Boa Vista. A paisagem não muda assim tanto, excepção feita para alguma vegetação rasteira que de cima se avista, uma ou outra árvore e a sensação de um oásis, que contrasta com o deserto de Viana, com origem no vizinho Saara. O avião que nos transporta lá vai dando voltas e voltas à ilha, numa serena abordagem à pista. É também neste momento que abrimos a boca de espanto pela dimensão do areal e as suas dunas gigantescas que vão beijar o mar. Avista-se a praia de Atalanta, onde há mais de quatro décadas naufragou o cargueiro espanhol Cabo de Santa Maria. A imagem dos seus destroços, corroídos pela erosão do tempo, em pleno areal são um dos cartões postais da ilha. Aliás, aquelas águas aparentemente serenas de um azul turquesa impressionante escondem mais de uma centena de barcos naufragados. Adiante surge a imponente Praia de Chaves, com a sua característica chaminé de tijolo ocre que chega a confundir-se um com um farol. É memória de outro tempo, de uma altura em que na ilha se instalaram Abraham e Esther Ben’Oliel, um casal de judeus sefarditas oriundos de Rabat, Marrocos, e que vieram imprimir um dinamismo económico à Boa Vista. O testemunho desta passagem encontra-se na sua antiga residência, hoje o Mirante Guest-House, um edifício colonial que prima pelo bom gosto, nas campas judaicas, e na própria chaminé, último vestígio da antiga fábrica de cerâmica, propriedade de Ben’Oliel. Esta tradição na olaria mantém-se até aos dias de hoje, agora na oficina-escola de Rabil. É aqui, junto a este monumento industrial que presta tributo à herança judaica na ilha, que se assiste a um dos maiores espectáculos da Boa Vista: o pôr-do-sol. É aqui que, sentados na areia, com o vento ‘Lestão’ a bater na face, vemos o sol laranja a ser engolido no horizonte pelo mar; é aqui que percebemos que há mais na vida para além do que possuímos, é um reencontro com as coisas simples da vida.

O paraíso é já ali

A capital, Sal-Rei é uma daquelas típicas aldeias piscatórias e não serão precisas grandes explicações para perceber a origem de tal nome. Em tempos, aqui, o sal foi rei. As ruas empedradas relembram tempos coloniais e continuam a dominar grande parte da ilha. Perdão, as picadas dominam a ilha, o que não a torna menos encantadora. Talvez as costas sofram mais, mas é o preço a pagar para chegar a praias que são o sonho de qualquer aventureiro. Em todo o lado se respira paz, segurança, o local ideal para umas retemperantes férias em família. Dominam os veículos 4×4, passeios de mota que são gritos de liberdade, e o kitesurf, que tem aqui uma verdadeira meca.

Sou desafiado para conhecer a verdadeira essência da Boa Vista. Partimos rumo à povoação de Rabil (nome de uma ave rara oriunda de Cabo Verde) e daí partimos para a imensidão do deserto. Somos surpreendidos pela paisagem lunar, rochosa, aqui e ali pontificada por montanhas nuas, como o Pico Estância. É impossível ficar indiferente ao cenário, à aridez de uma terra ingrata, mais ainda quando, numa pequena elevação, se avista, no meio do nada, a capela de Santo António. E não é a presença de cabras ou vagarosos burros que me surpreendem, mas sim as vacas, como se de um quadro surreal se tratasse. Uma hora depois, com as costas já a pedirem descanso, chegamos a Curral Velho, uma povoação abandonada devido à seca que assolou a região durante anos. Logo à entrada dou de caras com uma insólita casa, a única conservada, onde se pode ler em francês “o Palácio do meu pai”. Dizem-me que um imigrante em França decidiu recuperar a casa do pai em sua homenagem, e ali está! Já se avista o mar, as dunas, mas para lá chegar aguarda-nos a travessia de uma imensa salina. Vale a pena, se vale! À frente o ilhéu de Curral Velho e porto de abrigo dos famosos Rabil, talvez os únicos companheiros num passeio à beira mar. Deste lado da ilha não se avista um único café, uma sombra. Portanto, previna-se!

O sol já vai alto e espera-me uma paragem na praia de Santa Mónica. Faltam-me os adjectivos. Manda a objectividade jornalística que eles sejam eliminados. Tarefa impossível, porquanto estamos numa das mais belas praias do mundo. São 18 quilómetros de areia branca e fina, que se abrem numa imensa e baía e vão serpenteando a ilha, e aquele mar em todas as paletas de azul que conheço, tornam este lugar num santuário, onde até as tartarugas marinhas a elegeram como local de desova. É nesta praia, em Lacacão, que abre no próximo mês o Hotel Riu Touareg, um investimento de 122 milhões de euros da cadeia Riu, um cinco estrelas com mil quartos. O impacto é impossível de determinar, mas parece certo que aquele paraíso parece ter os dias contados, pelo menos tal como o conheci. Indiferentes a tudo isto, o meu guia e amigos fazem-se ao mar e aventuram-se na pesca submarina. Enquanto isso acende-se o lume, ali mesmo na praia, e da geleira saltam Strelas (a saborosa cerveja local) e Minis. Uma hora depois chega o peixe, de pronto assado. Dança-se o funaná e fazem-se juras de voltar. “Tud’drett’?”, perguntam-me sorrindo enquanto contemplo pela última vez Santa Mónica. Sorrio, “sim, agora está”.

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Massada – Bruxelas- Lisboa

Escrevo do aeroporto de Bruxelas. Enquanto esperava no lounge observo um judeu ortodoxo colocar os seus tefilins e fazer a sua resa matinal. Curiosa imagem; num mundo moderno, numa sala repleta de homens de negócios, há ali alguém que vive num mundo só seu, que está a falar com D-us, e que teima em resistir ao sinal dos tempos. Sorrio, num misto de tristeza e apreensão.

O dia de ontem foi para mim repleto de emoções, especialmente pela subida ao Monte Massada, onde se encontras as ruinas onde outrora foi uma bela fortaleza com dois palácios. Depois conto a história.

Agora…Lisboa espera por mim. Até já

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Da noite de Jerusalém à chuva do Mar Morto

Ontem à noite recordei-me do filme “Este País não é para velhos” quando saí à noite em Jerusalém.

Desde o início desta viagem que me tenho resguardado bastante de saídas nocturnas, isto para não falar em abstinência total. Eu sei que é um crime, mas a doença não me tem permitido. Mas ontem era de facto a únca oportunidade que tinha em visitar o Muro das Lamentações. Foi a minha quarta visita! E depois de jantar, acompanhado por dois amigos, um deles de há 38 anos (!), lá apanhámos um taxi que nos deixou na “Porta do Lixo”, e daí até ao Kotel são 2 minutos. A noite esta gelada. É que Jerusalém situa-se quase a 700 metros acima do nível do mar e aqui isto significa frio, muito frio! Para ajudarà festa, começou a chover!

Seja como for, lá estava eu diante do Muro, a tremer, e centenas e centenas de judeus ortodoxos a rezar numa sinfonia o mais desafinada possível. Olhava para os lados e via aquelas vestes negras, ares intimidadores e pensava para comigo “e esta a minha gente?”. E cada vez que havia um pequeno espaço no muro e me preparava para avançar, lá vinha outro casaco preto, de longos caracois no lugar das patilhas, roubar o espaço que era meu. Lá ia esperando e hesitando, enquanto me sentia um “estrangeiro”. Depois abri os olhos, olhei bem à volta, contemplei a diversidade que faz a beleza do judaismo, que nos faz todos iguais, o kosher e o não-kosher, o ortodoxo e aquele que só vai á sinagoga em Kipur, e sem medos avancei para um lugar no Muro que não existia. E subitamente o Muro pareceu maior e havia uma parte só minha. Beijei a pedra fria, beijada milhões de vezes por outros, cheirei o calcário com milhares de anos, abri os braços, aproximei a cara e ali fiquei a falar com D-us. Não sei se foi um minuto se foram 100, nem ao menos sei a língua que usei. Sei que naquele momento senti que é dali que eu sou e é com aquela gente, tão diferente de mim que quero estar. Emocionei-me, tremi, agradeci, pedi, prometi. Abandonei a pedra do Templo sem lhe virar as costas com a promessa de ali voltar no próximo ano: “L ‘Shana Haba’a B’yerushalayim”

Claro que comigo tem de existir sempre uma parte cómica. Estava eu nas minhas hesitações do vai não vai ao Muro quando se chegam dois imponentes rabinos ortodoxos que me perguntam o nome. “Reuven Ovadia!”. Reacção: “Aaaaaaaaaaaaaah… glorious name in honour of the Grand Rabi Ovadia Yossef”. Aperta-me cada um uma mão e começam a rezar, só interrompidos por uns Améns. E eu ali à rasca, com as mãos presas. Depois veio a pergunta de quem era a minha mãe e depois de mais uns “aahs”, veio o que eu já esperava: E que tal ajudar os pobres judeus? Por momentos pensei que me iam dar dinheiro a mim! Sim, um pobre judeu. Disse-lhes que era de Portugal, que o Governo de Sócrates não tinha piedade, que andávamos de tanga, mas nada surtiu efeito. Deixei-lhes com 30 xequels, o equivalente a 7 euros. No fundo, o único judeu que ficou pobre nesta história toda fui eu! Arre!

No dia seguinte deu-se a partida para o Mar Morto, e tal como previ num post anterior. Há locais que visitados em dias diferentes fazem toda a diferença, passe a redundância! Refiro-me ao Mar Morte e ao deserto que o abraça. Simplesmente fantástico e cheio de história. A aventura foi vivida num jeep 4×4 em pleno deserto, por entre riachos secos e em locais de que até as cabras teriam medo. Mas a vista de cima do Mar Morto, o olhar até à Jordânia, é uma sensação fantástica. Depois é passar mesmo por Sodoma e pensar na história. Juro, que não olhei para trás, não me fosse transformar em estátua de sal. Ou então avistar Qumran, o local onde há mais de 60 anos um pequeno pastor descobriu numa das milhares de grutas da encosta os famosos Manuscritos do Mar Morto!

Poderia passar a noite toda aqui a relatar o cheiro do sal e do enxofre, das enxurradas de surpresa que se abatem sobre este deserto e que o transformam num perigoso rio, ou no cous cous que comi ao jantar, ou ainda no quanto me emocionei ao ouvir cantar o Adon Olam, enquanto bebericava um café sofrível.

Amanhã aguarda-me um dos pontos altos de todas as minhas viagens: a subida a Massada. See u there!

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Pela primeira vez na viagem consegui dormir directo, num total de dez horas. Isso, um belo banho e a barba feita fazem maravilhas ao corpo e ao espírito de qualquer homem. Isto é até descer e ir tomar o pequeno almoço. É que o cheiro de todas aquelas saladas e misturas deixam antever um estômago à prova de tudo, o que não é o meu caso.

O hotel em Tiberíades onde passei a noite estava na melhor localização possível, bem junto ao Mar da Galileia. A vista do amanhecer é fantástica, com os primeiros barcos a iniciarem as travessias logo pelas sete da manhã. Por momentos pensei sonhar quando ouvi o hino americano a sair de um dos barcos, mas não. É mesmo assim, a malta da terra do Tio Sam faz questão de atravessar o Mar da Galileia (que não é mais do que um grande lago) a ouvir ” The Star-Spangled Banner”.

Impressionante também é o espectáculo nocturno de água, luz e som mesmo à beira do lago. É de graça e valeria a pena se não fosse tão piroso. Eu explico! Estando num local com tanta história suposto era que, não caindo em espectáculos pirosos e previsíveis, ao menos existisse alguma história. Nada. A música é tecno e sempre a bombar e até a projecção de uma bola de futebol na água podemos ver. Piroso ao quadrado, mas não menos espectacular.

Largámos logo cedo de manhã rumo a Tzfat (ou Safed), uma cidade que curiosamente é geminada com a Guarda. Particularmente é uma cidade que gosto muito, tem qualquer coisa no ar. Foi ali que dizem ter sido escrita a Cabalah, o livro místico do judaísmo. A pequena cidade situa-se no alto de um pequeno monte e encontra-se extremamente desorganizada, com obras em curso, mas vale a pena uma visita demorada. O conselho é perder-se nas ruas estreitas e cheias de charme de Tzfat. Em cada janela ou porta há um apontamento que merece ser fotografado. Depois é entrar numa das inúmeras galerias de arte moderna e perder a cabeça. E já que se fala em perder a cabeça, entrar na sinagoga de Abuhav (1490)  é um regalo aos olhos e uma experiência que será guardada a sete chaves para sempre.

Foi aquyi perto que comprei a minha mezuzah. Trata-se de uma pequena caixa colocada à entrada de um lar judaico, que contém um pequeno pergaminho com versos em hebraico retirados da Torah, entre os quais se encontra o Shema Yisrael (“Ouve, oh Israel,  o Senhor nosso D-us é o único D-us”. Desta forma a casa fica abençoada. Infelizmente a minha mezuzah foi vandalizada à vários anos, uma vez que se encontra no exterior do lado direito, o que explica os vários azares que tenho sofrido. 🙂 Quem ficar curioso em saber mais sobre as mezuzah aconselho uma pesquisa mais aturada, porque existem várias curiosidades na sua elaboração. Por exemplo, quem as escreve, uma vez começado o processo da escrita não pode parar ou levantar a pena.

O tempo não era muito e partimos novamente rumo a Tiberíades, desta feita para o Museu de Dona Graça Nassi, também conhecida por Senhora. Vale a pena tabém investigar, a história de uma judia portuguesa, a mulher mais rica do mundo no seu tempo, que primeiro sonhou com a construção de uma pátria para todos os judeus em Israel e que chegou a adquirir Tiberíades para esse efeito. Fantástico!

E finalmente, no caminho para Jerusalém demos um pulo ao Mar Morto. Pura desilusão, embora me reserve para uma segunda opinião, já que no próximo sábado vou lá passar o dia. Sim, ninguém se afoga, tal a concentração de sal; sim, arde para caraças; sim, tem gente a bezuntar-se de lama e a fazer figuras tristes; tem ainda grupos de missionários em alegres cantorias e em círculo, como se fossem os tipos mais felizes do mundo. Ah, e sim vendem cremes do mar morto!

Agora já estou em Jerusalém, com o meu multibanco a não funcionar (o que é uma alegria). Esta noite vou dar um salto ao Muro das Lamentações (Kotel) e passear no bairro judaico. Amanhã espero ter um dia verdadeiramente especial, pois será a primeira vez que estarei em Shabat em Jerusalém. 🙂

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O corpo é que paga

A velha música do Variações bem poderia servir de mote à minha actual situação física. Uma tosse que não me larga, parece que as entranhas vão sair a qualquer momento, uma febre que fas os ossos baterem uns nos outros e criar um novo estilo musical. Resumindo, durmo com dois edredons, um pullover e um lenço na cabeça para me tapar as orelhas. Acreditem que não é uma imagem feliz da minha pessoa. Mais pareço um leproso!

O pior é que ao copntrário da música do Variações, a cabeça teve de facto juízo e, contudo, o corpo é que pagou.

Já deixei Telavive para trás. Dizem que é a cidade que nunca dorme. Não faço ideia! O que eu sei é que para mim foi a cidade do «xi-xi e cama». Mas de facto impressiona a mentalidade aberta e cosmopolita, a par com a variedade de caras. É de facto um melting-pot formidável que não consegui viver em pleno.

Agora estou já em Tiberíades, nuym razoável hotel com vista para o Mar da Galileia. No fundo é um lago onde se encontram as maiores reservas de água doce de Israel e que tem a particularidade de se encontrar a mais de 400 metros abaixo do nível do mar, o que o torna único no seu género. Para dizer a verdade não tenho muito para contar sobre o local, acabei de chegar. Apenas posso dizer que jantei mal e que o expresso aqui é uma trampa. Ah, convém também dizer que o hotel está cheio de pessoas cuja idade mínima deve rondar os 75 anos. Ao menos neste aspecto promete ser calmo! 🙂

Amanhã a aventura continua, com uma visita matinal a Safed, um almoço no museu da Senhora Nassi e um pulo ao Mar Morto. Isto se entretanto eu não pifar de vez com esta gripe maldita.

Shalom Alehem

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