Ontem foi dia do Pai. Estava longe, muito longe, a milhares de quilómetros de distância. No sol da perdida ilha da Boa Vista, uma das várias que constituem este país único que é Cabo Verde, pensei no meu pai.
Fechei os olhos, embalado pelo som das ondas, e pensei no que o meu pai significa para mim; nas imagens mais fortes que tenho dele. É certo que este Judeu Errante é um blogue de viagens, mas a viagem ao mundo das emoções parentais é talvez a maior, mais desafiante e, muitas vezes, mais conturbada de todas as que já fiz. É esta a viagem que nos prepara para todas as outras.
O meu pai mudou. Mas a essência continua a mesma. Aquele pai severo, intransigente e punitivo foi substituído por um pai mais tolerante, mais conformado. A intransigência continua a ser o ponto em comum. A intransigência de quem tem sempre razão, do “eu bem te avisei” ou do “não sei como vocês (eu e a minha irmã) conseguem viver nessa desorganização”. É certo que eu e a minha irmã já não vivemos debaixo do mesmo tecto. Talvez isso tenha servido para apaziguar as coisas lá em casa. Vejo-o de semana a semana e invariavelmente opto por partilhar pouco da minha vida, por dar menos opiniões e por me limitar a conversas mundanas. Foi a forma que encontrei (ou encontrámos) de conservar a nossa relação. Desisti de o tentar mudar, de lhe abrir os olhos para as outras cores do arco-íris. Baixei os braços e já não discuto. Limito-me a observar a minha irmã degladiar-se à mesa e, no limite, num gozo macabro, atiro mais umas achas para a fogueira. E lá fica ela a discutir até que, muitas vezes, o ambiente se torna tão pesado que eu simplesmente abandono a mesa e vou aterrar no sofá.
Não raras as vezes sinto que um muro, um muro enorme, maior que o das Lamentações, foi construído entre mim e o meu pai. Fico triste. Gostava de partilhar tanto com ele; de o levar à praia para beber uma cerveja, mesmo que em silêncio; de o poder desafiar para uma das minhas inúmeras viagens. Talvez seja porque a partir dos 30 precisemos mais de um companheiro do que de um pai à antiga.
E hoje fiquei a saber que a mãe de uma colega de trabalho que há meses agonizava com um cancro, simplesmente partiu. Fico ainda mais triste. E volto a pensar no meu pai, nos seus quase 65 anos, no tempo que ainda lhe/nos resta.
O vento bate-me na cara. Sim, aqui na Boa Vista o vento é uma constante; uma forma de D-us resfriar o calor abrazador que mesmo no Inverno faz por aqui. Regrido no tempo. Não às vidas passadas do Dr. Weiss, mas à minha. Recordo a nossa peregrinação anual à sinagoga em dia de Yom Kipur e todo o protocolo que antecede e sucede a cerimónia. E é talvez neste dia, no dia em que não comemos, que mais próximo me sinto do meu pai. Momentos antes de tocar o Shofar*, quando o tallit** do meu pai cobre à minha cabeça, quando ele coloca a sua mão pesada sobre a minha cabeça e ambos baixamos a face em respeito; é nesse momento que sinto que ele é meu pai, meu companheiro, o meu amigo. Ou entao quando nas duas primeiras noites de Pessah*** lemos a Hagadah, há um determinado momento em que toda a família se junta, quase num abraço, e o prato cerimonial passa por cima das nossas cabeças enquanto vamos rezando. Mais uma vez, ele é meu pai, meu companheiro, meu amigo.
E talvez sejam estas as duas imagens mais fortes que tenho dele. E como eu gostava de ter tantas mais.
Neste dia penso também que sou pai de um filho que não tem pai. Sou pai do Noah, que sem saber como ou porquê, se vê impedido de passar este e outros dias com o pai. Sinto o sabor amargo do sentimento contido no coração; dos ensinamentos que não lhe vou poder passar. E apertam as saudades no peito daquele sorriso desdentado ou daquele abraço, ainda que desligado. Sinto saudades de ouvir simplesmente “papá, porque é que…?” Depois vem a raiva para com uma mãe egoísta, desquilibrada, e restante família de gente descompensada. Que gente é esta que nega ao filho a existência e convívio do próprio pai? Como tudo seria tão simples se a nossa Lei realmente funcionasse; se um progenitor fosse simplesmente preso em igual número de dias que priva o seu filho de ver o seu pai ou mãe! Mas não. Estou condenado a ser pai de um filho sem pai.
Encontro-me agora bem alto no céu, acima das nuvens, confortavelmente instalado no avião que me traz de volta à realidade. Enquanto isso, penso em como as relações humanas são muitas vezes tão complicadas e as de pais e filhos nunca chegam a atingir metade do seu potencial.
Lamento agora porque sei que me vou lamentar ainda mais no futuro. Vou lamentar todos os tempos que não passei com o meu pai e todos os momentos que, mesmo sem culpa, não fui pai para o meu filho. Esta é realmente uma viagem conturbada…
*Shofar – Corno de carneiro que, quando soprado, emite um som peculiar. Usado em certas cerimónias judaicas;
**Tallit – Uma espécie de xaile cerimonial judaico utilizado pelos homens na sinagoga;
***Hagadah – Livro que descreve a fuga dos judeus do Egipto e o caminho até encontrarem a Terra Prometida
As realções humanas são realmente complicadas…mas as de pai e filho tornam-se ainda mais quando mães ignorantes assim o ditam…um dia o Noah vai saber o pai fantástico que tem e aí poderá recuperar o que agora lhe teimam em tirar…É por seres assim….tão fantástico..que é impossível não te admirar..;) beijocas com mtas saudades
É um gosto lê-lo…escreve muito bem o que nos dias que correm é uma raridade…Continue!